terça-feira, 11 de março de 2008

O QUE SE PERDE COM A PRIVATIZAÇÃO DO BONDE DE SANTA TERESA

Hoje estou publicando um texto da minha amiga jornalista Débora Franco Lerrer, que conheci em uma festa de despedida de um outro grande amigo, José Luis Patrola, militante do MST aqui no Rio durante muitos anos. Débora foi assessora de imprensa do MST e escreveu um livro com o titulo: "A DEGOLA" DO PM PELOS SEM-TERRA EM PORTO ALEGRE. DE COMO A MÍDIA FABRICA E IMPÕE UMA IMAGEM. Minha amiga lançou um blog há alguns meses atrás, por ocasião de sua estadia na França e desde então venho tentando publicar um texto de seu blog de maneira simultânea. O nome do blog é FAZENDO CORRER O RISCO... o que nos parece bem sugestivo! Atualmente, entre outras atividades, minha amiga milita na Associação de Moradores de Santa Teresa.

Dia desses, pegando o bonde do Largo do Carioca para subir para Santa Teresa vi uma cena que, para mim, sintetiza porque é um absurdo que ainda seja possível algum "ser" que se considera "político" propor a privatização do Bonde de Santa Teresa, pois isso revela a visão torpe, distorcida e burra que costumeiramente acomete alguns "administradores" de bens públicos no Brasil.

O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher o lugar para sentar enquanto tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele partir rumo ao morro. Pouco depois de eu me aboletar estrategicamente na ponta esquerda, para tomar todo o vento que tenho direito, chegou um grupo de turistas alemães da chamada "terceira idade". Aposentados ricos que agora passam a vida a conhecer o mundo. A guia, uma brasileira, provavelmente de origem alemã, com seu irrepreensível domínio do idioma estrangeiro explicava ao grupo para onde íamos, etc. Claro que ela também não deixou escapar a oportunidade de mostrar a seus turistas o quão brasileira ela era, tirando onda da moça que queria subir o morro pendurada no estribo do bonde, para quem insistentemente ofereciam um dos lugares livres para ela sentar. O bonde começou a encher e, justamente quando motorneiro ia partir, chegaram os retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, ele estava lá aguardando esse grupo.Desnecessário dizer que todos os turistas alemães são brancos... branquelas, mais precisamente. Mas comecei a prestar atenção nisso, comparando-os com os brasileiros que chegavam, com aquelas morenices variadas. Entre as retardatárias, apareceu uma morena esguia, com saias longas, cebelos compridos, uma verdadeira "moura", do tipo das que na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com os lenços tapando os cabelos e sua beleza. Um dos velhos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo para trás, onde ela sentou, foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Estavam chegando duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente moradoras de uma das favelas do bairro. Eram conhecidas ou não dos funcionários do bonde. Não importa. Eram moradoras do bairro, e o motorneiro deu marcha ré no bonde para que elas subissem e se instalassem mais confortavelmente, no caso, no lado dos alemães que achavam que iam poder subir folgados no bonde. Afinal, cada banco é para quatro pessoas. E essa regra é cumprida à risca.Na hora me dei conta de como eu nunca poderia ver isso na Europa Ocidental. Não sei nem mesmo se isso é ainda possível na Itália, em Portugal ou na Espanha. Lá se deu o horário; se o ônibus parou no ponto e fechou a porta, mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, ele não vai abrir a porta para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Rio de Janeiro e no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos "personalistas". Abrimos sempre excessão para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para um brecha possível. Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles tenham cada um seus tipos de "jeitinhos", eles perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de excessão que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se "dar bem". Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno. A vida social, no Rio de Janeiro, pelo menos, se caracteriza por regras tácitas de convívio em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil. Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual nós procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Mas invariavelmente, adoramos abrir excessões. Não aguentamos. O único problema é que realmente, para a gente chegar perto de uma maior "justiça social", nós temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.

Voltando à questão do bonde. Se como quer o tal Julio Lopes, ele privatizar os bondes, dando-os de presente para a turma dos trens do Corcovado, ele vai virar bonde de turista. Vai sair no horário. Vai ser limpinho. Sem grandes problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar enclapsulados nesses oásis turísticos assépticos, tirar fotografia e esquecer o que viveram. Pois um país a gente conhece no meio de seu povo. E o povo brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. Um povo que é europeu, africano e índio ao mesmo tempo. Eles vão perder de ver uma cena como essa. De sentar ao lado de gente colorida, que expressam nessa raça brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde bonde que atrasa seu horário para que os passageiros retardatários cheguem e depois de andar, dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana. Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito de mencionar essa proposta ridícula, este senhor passa por cima de uma luta empreendida pelos moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse existir. Sim, por que se fosse depender de políticos da laia dele, esse bonde não existiria mais, e o pitoresco passeio turístico que ele quer privilegiar, não existiria. Ao se dar a ousadia de pensar sobre isso, ele dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha desses políticos obtusos. Mas o mais grave mesmo, é que os moradores do bairro iriam perder o que lhes é de direito, pelo qual lutaram. E se dependessem só do ônibus que serve o bairro, viveriam torturados pelos gastos astronômicos que teriam de transporte.

É importante ter em mente que o transporte público no Rio de Janeiro é mais caro do que em Paris e é 100 vezes pior. Em suma, a população pobre e de renda média, que não tem carro, que depende sofrendo do tranporte público e do bonde, perderia o serviço e ainda por cima pagaria a conta, pois esse tal empréstimo do Banco Mundial que saiu para reformar a linha permanente - que está um escândalo de mal feita - e os bondes - cujo protótipo custou 1 milhão mas seus engenheiros não se deram ao trabalho de projetá-lo para encaixar nos trilhos - é pago por toda a população do estado do Rio de Janeiro. Se o secretário der de presente o bonde para a turma do Corcovado, como ele já declarou publicamente, a maioria dos que vão pagar esse empréstico certamente não vai poder pagar as tarifas que eles cobram, para poder fazer o que sempre fez: andar de bondinho para ir para casa, para ir para o trabalho, para estudar. Ela vai pagar para o turista desfrutar predatoriamente de seu direito adquirido.
*Extraído do blog: FAZENDO CORRER O RISCO da jornalista Débora Franco Lerrer

Um comentário:

Wireless disse...

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