sábado, 4 de agosto de 2007

CONVERSA NO SALÃO DE BELEZA

É com grande prazer que apresento nossa mais nova colaboradora. Já venho pedindo para ela me enviar um texto para nosso blog, porém sem tempo, dando aulas no IFCS e fazendo seu doutorado, estava quase impossível qualquer outra coisa. Conheci Isabela Campoi em um ônibus à caminho de Salvador. Estávamos indo para o "BRASIL OUTROS QUINHENTOS", e ficamos presos na estrada. Muitas histórias!
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Conversa no salão de beleza.
Eu havia marcado horário no dia anterior: dez e meia da manhã. Já tinha acontecido uma vez antes: a manicure não foi. Trocando em miúdos, levei um “bolo”! De novo. Eu tenho uma coisa com as palavras. Se disse que ia fazer, eu faço. A não ser que circunstâncias especiais contribuam pra algum tipo de esquecimento. Promessas de bar, por exemplo (assim me justifico, André).
Decidi que esperaria a manicure por meia hora. As outras todas estavam ocupadas e acabei entrando num papo com a cliente da Evelyn. A Evelyn foi alvo de uma enquête que eu tinha feito semanas antes pelas ruas. A pergunta: “Você já viajou de avião?” E ela conhecia Cuba. Achei o máximo! Pelo trabalho no salão, ela abandonara a faculdade particular de Enfermagem. Não pôde mais pagar e teve que trabalhar. Eu sugeri que ela fizesse o pedido de equivalência de histórico escolar e tentasse entrar na UFRJ. Bem, mas isso foi outro dia. Hoje, com o segundo “bolo” da Lucilene, eu comecei a conversar com a cliente da Evelyn. Auditora do INSS de Vitória, ela estava em trabalho temporário no Rio. Falamos de greve. Ela é contra, acha que não resolve nada. Concordou comigo, quando eu disse que há uma espécie de cultura da greve no Brasil. Falei mal do funcionalismo público. Ela concordou, mas um pouco sem graça, afinal, ela é funcionária pública e disse que trabalha muito. Falou de mudanças que estão acontecendo e que darão mais eficiência ao trabalho da previdência social no Brasil. Os que estão resistindo, como nos hospitais federais, é porque serão cobrados e não querem perder as regalias, típicas do nosso funcionalismo. Eu já tinha concluído que um dos graves problemas no Brasil está ligado à gestão. Meramente: gerir, administrar, fazer funcionar, enfim. Depois partimos pra outra pauta: a vida privada. Mãe de gêmeas, o marido chegara ontem do Espírito Santo pra passar o fim de semana com ela num hotel da Lapa. Ela sentia mais saudade da sua cadela de estimação do que de qualquer outra coisa ou pessoa da sua casa em Vitória.
Foi quando, escondendo minha opinião a esse respeito, olhei as horas: faltavam cinco minutos pras onze e “minha” manicure não havia chegado ainda. Quando a mulher começou a relatar o tratamento de beleza que sua cachorrinha recebe semanalmente em um petshop, esmoreci pensando: “Já é hora de ir!”. Voltei pra casa chateada com a Lucilene e decidida a mudar de manicure. E a elegi. É certo que a Evelyn tem muito a me dizer sobre Cuba.

Isabela Campoi, professora substituta na área de História do Brasil na UFRJ, doutoranda em História Social na UFF( bolsista CAPES).

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