sábado, 5 de abril de 2008

Deu na GRANDE mídia...

Há mais de dez anos atrás trabalhei na VINDE - VISÃO NACIONAL DE EVANGELIZAÇÃO como assessor de assuntos comunitários do presidente da organização, Pr. Caio Fábio. Foi lá que conheci Jorge Antonio Barros*, que está hoje no jornal O GLOBO mas que na época era o diretor de comunicação da VINDE. Fui na redação de O GLOBO esta semana e reencontrei o "Jorginho" como carinhosamente o chamávamos. Conversamos sobre as atividades que ambos têm realizado ultimamente, e achei interessante divulgar o último texto escrito no blog dele, pois é um serviço à sociedade. Hoje mesmo recebi um telefonema de minha irmã, que está internada com DENGUE. A dengue está vitimando milhares de pessoas e parece que está acontecendo um grande descaso do Estado, principalmente na esfera municipal. Vamos acompanhar esse debate e nos mobilizar!


Em parceria com o blog REPÓRTER DE CRIME, o Globo Online realiza na próxima terça-feira, dia 8, de 11h às 13h, um chat em vídeo ao vivo sobre a epidemia que ameaça o Rio. "Informação: a melhor arma contra dengue" é o debate-entrevista para o qual já confirmaram presença o secretário estadual de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes, e o epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ. A convite da editora-executiva do Globo Online, Raquel Almeida, o debate será mediado por este blogueiro.

Os internautas poderão participar ao vivo com perguntas e comentários, desde que informem seu nome verdadeiro e email para contato, para se evitar a prática de acusações anônimas e levianas que são comuns na internet. Este é o segundo chat on line apresentado pelo Globo Online em parceria com o REPÓRTER DE CRIME. O primeiro foi realizado no ano passado e colocou, lado a lado, dois ex-integrantes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), o tenente-coronel Mário Sérgio e Rodrigo Pimentel, debatendo o filme "Tropa de Elite". Esse debate foi considerado um sucesso com mais de 3 mil acessos e cerca de 300 perguntas enviadas pelos leitores-internautas.

O Globo Online decidiu convidar Côrtes e Medronho porque ambos apresentaram uma postura pró-ativa no combate à dengue. O secretário estadual de Saúde foi a primeira autoridade a admitir, no dia 20 de março, que o Rio sofre uma epidemia (relembre aqui), um dia depois de O GLOBO publicar manchete na qual o epidemilogista Roberto Medronho afirmou que o estado vive uma epidemia de dengue desde janeiro. Medronho é considerado um dos maiores especialistas em dengue do país. Conheça aqui o perfil do doutor em Saúde Pública pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz. E aqui conheça um pouco do secretário de Saúde do Estado.

A dengue é uma doença que reapareceu no Rio em 1986. Na época se pensava até que a culpa fosse de uma grande indústria de medicamentos, que funciona na Baixada Fluminense, onde a doença se manifestou na ocasião. Cobrindo protestos dos moradores contra a tal fábrica, eu também fui contaminado. Desde então, o mosquito "aedes aegypti" tem sido o inimigo público número um de cidades como Rio, sobretudo durante o verão. Essa nova epidemia está marcada por uma letalidade jamais vista no país (são 67 mortes confirmadas no Estado) e um face ainda mais cruel: crianças e adolescentes têm sido os maiores alvos do mosquito. Enquanto a população sofre (são 57 mil casos desde o início do ano), fugindo do mosquito, ou encarando até 28 horas à espera de uma vaga em hospitais lotados, autoridades deram sinal de imaturidade ao ficar debatendo de quem é a culpa. Nesse ponto, o governo do estado saiu na frente e admitu a responsabilidade pelo combate à doença.

- O único alvo de nossa polêmica tem que ser o mosquito - afirmou o secretário Sérgio Côrtes, a este blog.

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/
*Sobre o autor:
Jorge Antonio Barros cobre criminalidade e segurança pública desde 1981. É editor-adjunto de Rio do GLOBO. Tem dois prêmios Esso e ganhou, em 2007, o Prêmio de Jornalismo do AfroReggae e a menção especial do Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. É integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

quinta-feira, 27 de março de 2008

Não deu na GRANDE midía...

NOVO PROJETO DA ANF NA UERJ
AMIGOS DA SABEDORIA é o nome do novo projeto da ANF (Agência de Notícias das Favelas). A organização, que está em busca de patrocínio, pretende receber doações de livros para que os mesmos possam ser vendidos nas universidades públicas. De acordo com a direção da ONG, o preço do livro deve permitir o acesso do máximo de pessoas ao conhecimento, em especial os moradores das favelas que frequentam as universidades. Através da quantia arrecadada com a venda dos livros, a ANF busca a auto-sustentabilidade, bem como a manutenção do grupo que trabalha com ela. Hoje mesmo, o Reitor da UERJ Ricardo Vieralves recebe um pedido para a utilização do nono andar para instalação da primeira banca de livros da organização.

terça-feira, 25 de março de 2008

NOTÍCIAS DE UM COMPANHEIRO

Já havia falado aqui, ao publicar o texto de Débora Franco Lerrer (PRIVATIZAÇÃO DOS BONDES DE SANTA TERESA), que a havia conhecido na festa de despedida de meu amigo e companheiro José Luis Patrola do MST. Quando conheci Patrola, ele era o representante dos sem-terra junto à FLP (Frente de Luta Popular). O mundo deu voltas, e o passeio no Shopping Rio Sul, organizado pela FLP, na época, está hoje sendo documentado em HIATO:, de Vladimir Seixas, mais um de nossos parceiros nessa caminhada. Nosso companheiro do MST, que na época participou do ato, infelizmente não está entre nós para comemorar a pré-estréia brevemente agendada; mas está no Paraguay, acompanhando as eleições e nos enviando informes sobre a sua agenda de trabalho. Agradecemos sua participação em nosso blog e esperamos receber mais informações do pleito em nosso país vizinho.
Bispos paraguaios exortam a revalorizar o voto para evitar 'conseqüências nefastas'.

A Conferência Episcopal Paraguaia (CEP) exortou a revalorizar o voto nas eleições gerais de 20 de abril e considerou que a “perversacultura política” do país impede o pleno exercício da democracia. As informações se encontram no Periodista Digital, 14-03-2008. A tradução é do Cepat.
“Nunca será suficiente toda prevenção e advertência sobre as nefastas e irreparáveis conseqüências para a qualidade da nossa vida democrática, se subestimarmos ou ‘trivializarmos’ o valor do voto, pessoal, individual e intransferível de cada eleitor”, indicou a CEP em seu extenso comunicado no final de sua 182ª Assembléia Geral Ordinária.
“Também não se trata de manifestar (...) nossas acostumadas preferências (ou prejuízos) partidárias ou políticas, mas escolher os melhores, pessoas idôneas, íntegras e confiáveis para nos representar e desempenhar as mais altas funções doEstado”, explica o documento. Além disso, os bispos opinaram que “a democracia participativa, técnica e propriamente dita, ainda não foi aplicada” no país, apesar de que a Constituição declara que a forma de Governo é a “democracia representativa, participativa e pluralista”. Responsabilizaram por essa situação a “perversa cultura política” que, segundo a CEP, “é a raiz dos males” da democracia nesse país. “Devemos erradicar essa forma corrupta de fazer política na base do clientelismo, do ‘prebendismo’, da corrupção e da impunidade, às custas da idoneidade, da probidade, da trajetória, da dedicação, do esforço e da responsabilidade”, pediram.
Por outro lado, reiteraram que Fernando Lugo, candidato presidencial de um setor da oposição nas eleições gerais de abril próximo, continua sendo bispo apesar de ter renunciado ao seu estado clerical para dedicar-se à política. “Segundo o Código de Direito Canônico, um bispo da Igreja Católica continua a sê-lo para sempre mesmo que (esteja) suspenso em seus ofícios eclesiásticos”, precisou o comunicado. A Constituição paraguaia estipula que os ministros de qualquer religião ou culto não podem ser candidatos a Presidente. Lugo, candidato da coalizão Aliança Patriótica para a Mudança (APC), renunciou em dezembro de 2006 ao seu estado clerical e posteriormente foi suspenso “a divinis” pelo Vaticano, o que, a juízo da CEP, “não significa ser reduzido ao estado laical”.
Os prelados consideraram, assim mesmo, que o candidato da APC “continua sendo bispo” e está “sujeito à autoridade do Papa”. Também reiteraram que a “Igreja não propõe nenhum candidato e, portanto, não apóia nenhuma candidatura”. Lugo, que aparece como favorito nas intenções de voto, é o cabeça de chapa da APC, que tem como candidato a vice-presidente Federico Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), segunda maior força eleitoral do país.

sábado, 22 de março de 2008

"NÃO FALE MAL DA MÍDIA, CRIE UM FATO."

A frase de Silvio Tendler, registrada no documentário “Hiato:”, de Vladimir Seixas, retoma o foco sobre o panorama social urbano em que vivemos, e seus impasses. Camuflado por máscaras sociais que tentam esconder os fatos, o estourar das luzes que encerra o primoroso trabalho de Seixas, recolhe e denuncia imagens retalhadas e falas cortantes, com a qual teremos que lidar de alguma forma.

Mas afinal, que fato novo é este, criado pelas massas e recriado pelo cinema, que tem como pano de fundo a mídia, de prontidão em torno do registro exato, que tenha efeito de verdade incontestável? Um passeio ao shopping, não pode? Não temos esse direito? Têm, vocês têm direito, informa a polícia aos passageiros de um dos ônibus não apreendidos, graças ao poder das câmeras.

De que modo um passeio ao shopping pode ser entendido como um fato novo, dentro do contexto urbano? De que modo a banalidade pode ser transformada em um acontecimento de proporções midiáticas gigantescas? Com base nas imagens documentadas, isto se dá no instante em que se estressam as zonas de conflito e se reconfiguram as possibilidades desejantes.

Você não vai comprar, diz a vendedora a um dos visitantes. A intervenção quer naturalizar as relações de troca, cuja fragilidade é denunciada pelo descontrole das operações. Como é possível se querer outra coisa, se ver frente à economia do desejo e desrespeitar as regras invisíveis, claramente violentas? As desigualdades criadas pelo sistema são publicamente explicitadas: você não tem dinheiro, portanto não é bem vindo ao mundo do consumo! Eles não se intimidam, estão em bando.

A manifestação popular frente ao desejo é o fato novo, contra o qual as forças militares e os demais aparatos de proteção social não têm controle ou argumentos legais. Uma intrigante trama de subjetividades é recortada com presteza, intensidade e foco pelo cineasta iniciante. Pés mal calçados sob a lama e ali, do outro lado da rua, o luxo intocável das vitrines abalado pelo tumulto desconcertante.

O patrão mandava eles fecharem as portas, mas não mandavam nos olhar de cara feia, com nojo. O efeito já sabido da repulsa e da vergonha é marcado e remarcado na insistência das imagens documentadas. As atitudes repressivas com relação ao desejo ultrapassam as barreiras da moral, desvelando a obscenidade contida nos olhares enojados e enojantes.

A genialidade do movimento de “ir ao shopping” tem como base a explicitação da dicotomia entre dois fronts. A luta de classes como uma luta do desejo, se manifesta nas massas indisciplinadas, bárbaras e desejantes. A barbárie cotidiana é cuspida de volta, no prato daqueles que querem manter a política de exclusão como a única forma de ordenação social.

O jeito era esperar que eles se acalmassem e fossem embora o mais rápido possível. E assim se deu. Mas um novo fato desassossega o olhar do expectador, intimado a romper de vez com as aparências do cotidiano. O documentário de aproximadamente vinte minutos produz desassossego. Frente à lógica do desejo, a realidade explode,quer nos aviltar.
Eliane Martins - Psicanalista

quarta-feira, 19 de março de 2008

Deu na GRANDE mídia...

Apesar da GRANDE mídia estar ligada ao capital e aos interesses normalmente de uma classe que não a dos pobres, quem escreve nas redações não são pessoas ricas, antes pelo contrário, são pessoas que, em sua grande maioria, conseguiu crescer e alcançar um patamar com a força de seu trabalho! Ontem mesmo estava em uma palestra do jornalista Caco Barcellos que assim como grande parte dos jornalistas, nasceu e cresceu em um bairro da periferia, o que corrobora essa tese. Existe porém um esforço, apesar dos patrões, de se fazer um jornalismo isento por parte de muitos que estão nas redações.

A partir de hoje estarei publicando semanalmente uma nova coluna: "Deu na GRANDE mídia". O objetivo é mostrar o que a grande mídia tem publicado, baseado nos contatos que venho mantendo com jornalistas sérios. Apesar dos movimentos populares ainda não terem aprendido a lidar tão bem com a mídia, é uma ferramenta importantíssima para quem quer realizar algum trabalho que necessite de repercussão.
O DIA QUE OS SEM-TETO VISITARAM O SHOPPING

O polêmico passeio que os sem-teto fizeram no Shopping Rio Sul, em 2000, virou filme nas mãos do cineasta e mestrando em Filosofia Vladimir Seixas, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. A proposta: mostrar como eles souberam manipular a mídia. "Os sem-teto convocaram a imprensa e disseram que seria um protesto. Mas na verdade só queriam passear, chamar atenção. E conseguiram. Todos os jornais compareceram", diz ele, que resgatou a história de 'Hiato:' com integrantes do movimento. O filme percorrerá agora salas de aula e será ponto de partida para debates entre estudantes.

FONTE: Jornal O DIA (INFORME O DIA com Jan Theophilo) em 19/03/2008

terça-feira, 18 de março de 2008

Não deu na GRANDE mídia...

ASSISTENTES SOCIAIS REVOLTADOS


Os profissionais da Secretaria de Assistência Social do Município do Rio de Janeiro, que têm como titular Marcelo Garcia, andam revoltados com o secretário. Marcelo determinou que os assistentes sociais entrem nas comunidades para realizar seu trabalho, mesmo que as mesmas estejam em conflito. O episódio que mais deixou os funcionários preocupados foi quando o secretário determinou que os profissionais entrassem no complexo do alemão, junto com a polícia, que faria uma operação na comunidade. Policia é polícia, assistente social é assistente social, não dá pra misturar as estações, dizem os profissionais.

terça-feira, 11 de março de 2008

O QUE SE PERDE COM A PRIVATIZAÇÃO DO BONDE DE SANTA TERESA

Hoje estou publicando um texto da minha amiga jornalista Débora Franco Lerrer, que conheci em uma festa de despedida de um outro grande amigo, José Luis Patrola, militante do MST aqui no Rio durante muitos anos. Débora foi assessora de imprensa do MST e escreveu um livro com o titulo: "A DEGOLA" DO PM PELOS SEM-TERRA EM PORTO ALEGRE. DE COMO A MÍDIA FABRICA E IMPÕE UMA IMAGEM. Minha amiga lançou um blog há alguns meses atrás, por ocasião de sua estadia na França e desde então venho tentando publicar um texto de seu blog de maneira simultânea. O nome do blog é FAZENDO CORRER O RISCO... o que nos parece bem sugestivo! Atualmente, entre outras atividades, minha amiga milita na Associação de Moradores de Santa Teresa.

Dia desses, pegando o bonde do Largo do Carioca para subir para Santa Teresa vi uma cena que, para mim, sintetiza porque é um absurdo que ainda seja possível algum "ser" que se considera "político" propor a privatização do Bonde de Santa Teresa, pois isso revela a visão torpe, distorcida e burra que costumeiramente acomete alguns "administradores" de bens públicos no Brasil.

O bonde tinha acabado de encostar e, vazio, pude escolher o lugar para sentar enquanto tinha que esperar uns 10 ou 15 min para dar a hora dele partir rumo ao morro. Pouco depois de eu me aboletar estrategicamente na ponta esquerda, para tomar todo o vento que tenho direito, chegou um grupo de turistas alemães da chamada "terceira idade". Aposentados ricos que agora passam a vida a conhecer o mundo. A guia, uma brasileira, provavelmente de origem alemã, com seu irrepreensível domínio do idioma estrangeiro explicava ao grupo para onde íamos, etc. Claro que ela também não deixou escapar a oportunidade de mostrar a seus turistas o quão brasileira ela era, tirando onda da moça que queria subir o morro pendurada no estribo do bonde, para quem insistentemente ofereciam um dos lugares livres para ela sentar. O bonde começou a encher e, justamente quando motorneiro ia partir, chegaram os retardatários. Como se já soubesse da turma que sempre chega na última hora, ele estava lá aguardando esse grupo.Desnecessário dizer que todos os turistas alemães são brancos... branquelas, mais precisamente. Mas comecei a prestar atenção nisso, comparando-os com os brasileiros que chegavam, com aquelas morenices variadas. Entre as retardatárias, apareceu uma morena esguia, com saias longas, cebelos compridos, uma verdadeira "moura", do tipo das que na Alemanha, por conta de sua religião, vivem com os lenços tapando os cabelos e sua beleza. Um dos velhos alemães não conteve o espanto com aquela visão e virou-se para trás no banco, para melhor contemplá-la. Sua virada de corpo para trás, onde ela sentou, foi quase um reflexo. Fiquei admirada em como ele, já corcunda pela idade, mantinha-se vivo.Quando o bonde deu a partida, andou poucos metros e parou novamente. Estavam chegando duas mulheres negras. Uma delas com um bebê no colo. Provavelmente moradoras de uma das favelas do bairro. Eram conhecidas ou não dos funcionários do bonde. Não importa. Eram moradoras do bairro, e o motorneiro deu marcha ré no bonde para que elas subissem e se instalassem mais confortavelmente, no caso, no lado dos alemães que achavam que iam poder subir folgados no bonde. Afinal, cada banco é para quatro pessoas. E essa regra é cumprida à risca.Na hora me dei conta de como eu nunca poderia ver isso na Europa Ocidental. Não sei nem mesmo se isso é ainda possível na Itália, em Portugal ou na Espanha. Lá se deu o horário; se o ônibus parou no ponto e fechou a porta, mesmo que o motorista ainda não tenha arrancado, ele não vai abrir a porta para o esbaforido passageiro que vê correndo em sua direção. Mas aqui no Rio de Janeiro e no Brasil, em geral, fazemos isso. Não somos dados à frieza das regras e dos contratos. Somos "personalistas". Abrimos sempre excessão para uma pessoa conhecida, ou para o que consideramos mais justo, para um brecha possível. Critica-se muito os desvios desse nosso comportamento. Afinal, a modernidade européia é contratualista e se caracteriza por regulamentos e leis que valem para todos. Mesmo que eles tenham cada um seus tipos de "jeitinhos", eles perseguem isso e criaram mecanismos eficazes para fazer vigilância para que isso se cumpra. No entanto, são muito impessoais e frios. Quase isolados em torno de si mesmos. Já nós, com todos os tipos de excessão que inventamos, volta e meia nos vemos aprisionados por interesses obscuros, de alguns poucos que se aproveitam das brechas para se "dar bem". Mas a maioria vive esse tipo de flexibilidade adotando uma espécie de bom senso. Senão, viveríamos em um inferno. A vida social, no Rio de Janeiro, pelo menos, se caracteriza por regras tácitas de convívio em torno dessas brechas. E isso se repente em maior ou menor grau em todo o Brasil. Por outro lado, perseguimos essa receita européia, na qual nós procuramos nos ajustar, por considerarmos mais justa. Mas invariavelmente, adoramos abrir excessões. Não aguentamos. O único problema é que realmente, para a gente chegar perto de uma maior "justiça social", nós temos que buscar formas de administrar nosso jeito de viver com mecanismos que justamente favoreçam a maioria e não a minoria de espertalhões.

Voltando à questão do bonde. Se como quer o tal Julio Lopes, ele privatizar os bondes, dando-os de presente para a turma dos trens do Corcovado, ele vai virar bonde de turista. Vai sair no horário. Vai ser limpinho. Sem grandes problemas de manutenção. Mas esses próprios turistas vão perder oportunidades preciosas de ver como funciona de fato a cultura brasileira. Vão ficar enclapsulados nesses oásis turísticos assépticos, tirar fotografia e esquecer o que viveram. Pois um país a gente conhece no meio de seu povo. E o povo brasileiro é peculiar e especial no seu jeito de agir. Um povo que é europeu, africano e índio ao mesmo tempo. Eles vão perder de ver uma cena como essa. De sentar ao lado de gente colorida, que expressam nessa raça brasileira vários tipos humanos. Vão perder de ver um bonde bonde que atrasa seu horário para que os passageiros retardatários cheguem e depois de andar, dá marcha ré para atender duas mulheres e uma criança. Atitude generosa. Gentil. Humana. Mas pior do que isso. Ao se sentir no direito de mencionar essa proposta ridícula, este senhor passa por cima de uma luta empreendida pelos moradores e funcionários do bonde para que ele continuasse existir. Sim, por que se fosse depender de políticos da laia dele, esse bonde não existiria mais, e o pitoresco passeio turístico que ele quer privilegiar, não existiria. Ao se dar a ousadia de pensar sobre isso, ele dá um tapa na cara da população carioca que resistiu à sanha desses políticos obtusos. Mas o mais grave mesmo, é que os moradores do bairro iriam perder o que lhes é de direito, pelo qual lutaram. E se dependessem só do ônibus que serve o bairro, viveriam torturados pelos gastos astronômicos que teriam de transporte.

É importante ter em mente que o transporte público no Rio de Janeiro é mais caro do que em Paris e é 100 vezes pior. Em suma, a população pobre e de renda média, que não tem carro, que depende sofrendo do tranporte público e do bonde, perderia o serviço e ainda por cima pagaria a conta, pois esse tal empréstimo do Banco Mundial que saiu para reformar a linha permanente - que está um escândalo de mal feita - e os bondes - cujo protótipo custou 1 milhão mas seus engenheiros não se deram ao trabalho de projetá-lo para encaixar nos trilhos - é pago por toda a população do estado do Rio de Janeiro. Se o secretário der de presente o bonde para a turma do Corcovado, como ele já declarou publicamente, a maioria dos que vão pagar esse empréstico certamente não vai poder pagar as tarifas que eles cobram, para poder fazer o que sempre fez: andar de bondinho para ir para casa, para ir para o trabalho, para estudar. Ela vai pagar para o turista desfrutar predatoriamente de seu direito adquirido.
*Extraído do blog: FAZENDO CORRER O RISCO da jornalista Débora Franco Lerrer

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